Se há uma lição fundamental que todo groomer precisa internalizar é esta: não existe “pelo de cachorro” ou “pelo de gato” como categoria única. A diversidade de texturas, densidades, comprimentos e ciclos de crescimento das pelagens é imensa, e cada tipo apresenta desafios e necessidades específicas. Trabalhar com a abordagem “um tamanho serve para todos” resulta em ineficiência operacional, danos à pelagem e desconforto para o animal. Compreender em profundidade a tipologia das pelagens e suas características fisiológicas é, portanto, o alicerce da competência técnica. Esse conhecimento orienta a escolha de ferramentas, produtos, técnicas e tempo de execução, permitindo que o profissional entregue resultados superiores com segurança e eficiência.
Pelagem dupla (double coat)
Raças como Spitz Alemão, Husky Siberiano, Golden Retriever, Chow Chow, Border Collie, Pastor Alemão e Samoieda possuem pelagem dupla, composta por dois tipos distintos de fio:
- Pelo primário (guard hair): longo, grosso, brilhante, impermeável e com função de proteção mecânica (contra espinhos, insetos) e óptica (refletir radiação UV).
- Subpelo (undercoat): curto, lanoso, denso, com função de isolamento térmico, retendo camadas de ar que protegem a pele tanto do frio quanto do calor.
Pelagem longa e lisa
Raças como Yorkshire Terrier, Maltês, Lhasa Apso e Afghan Hound possuem pelos que crescem continuamente, semelhante ao cabelo humano, geralmente sem subpelo denso. Essa pelagem exige:
- Hidratação profunda regular com condicionadores de qualidade.
- Escovação diária para evitar nós, especialmente em áreas de atrito (axilas, atrás das orelhas, virilha).
- Tosa ou corte com tesoura para manter o comprimento manejável, preservando o caimento natural do fio.
Pelagem dura
Raças como Schnauzer, West Highland White Terrier, Fox Terrier e Airedale Terrier possuem pelo de textura dura, rígida, que cresce até um ponto e depois morre, mas não cai sozinho. O folículo retém o fio morto, impedindo o nascimento de um novo fio. O manejo correto exige a técnica de arrancar manualmente o fio morto, mas as rasqueadeiras ajudam e estimulam o nascimento de um novo fio.
Pelagem encaracolada
Raças como Poodle, Bichon Frisé, Cão d’Água Português e Lagotto Romagnolo possuem pelo encaracolado de crescimento contínuo e queda mínima. A estrutura espiralada favorece a formação rápida de nós junto à pele, especialmente em áreas de movimento.
Esse tipo de pelagem exige:
- Tosa regular (a cada 4-8 semanas, dependendo do estilo).
- Escovação frequente entre tosas para evitar emaranhados.
- Uso de produtos desembolantes e técnicas de secagem com escovação simultânea
Pelagem curta: queda constante e cuidados dermatológicos
Raças como Pug, Beagle, Boxer, Dálmata e Labrador Retriever possuem pelo curto com ciclo de troca rápido. Embora não exijam tosa, a queda constante de pelos pode ser problemática para os tutores.
O foco do banho deve ser:
- Remoção de pelos mortos com escovas, luvas ou rasqueadeiras de pinos curtos.
- Hidratação da pele para evitar descamação (caspa) e irritações, especialmente em raças com dobras cutâneas.
Pelagens felinas: particularidades e necessidades
Em gatos, a diversidade também é ampla:
- Pelo curto (British Shorthair, Siamês): Geralmente autolimpantes, mas beneficiam-se de escovação semanal para reduzir a ingestão de pelos e prevenir tricobezoares (bolas de pelo).
- Pelo semi-longo e longo (Maine Coon, Persa, Ragdoll): Subpelo abundante que embola facilmente. Escovação diária é essencial. Banhos profissionais regulares são necessários para desengordurar a pelagem (gatos produzem muito sebo) e remover nós.
- Sem pelo (Sphynx): Ao contrário do que se pensa, exigem alta manutenção. Banhos semanais ou quinzenais são necessários para remover o sebo acumulado na pele, além de limpeza frequente de ouvidos e dobras cutâneas.
Conhecimento como diferencial competitivo
Dominar a tipologia das pelagens é importante. Esse conhecimento permite:
- Escolher a ferramenta certa (rasqueadeiras, pentes, escovas) para cada tipo de pelo.
- Selecionar produtos adequados (shampoos, condicionadores, desembolantes) que respeitem a fisiologia do fio.
- Definir protocolos de manutenção que equilibrem estética, saúde e praticidade.
- Educar o tutor sobre os cuidados necessários entre visitas ao salão.
Diversidade que exige especialização
A diversidade de pelagens reflete a própria diversidade da domesticação e da seleção artificial. Cada raça foi moldada para uma função específica, e a pelagem evoluiu em resposta a demandas climáticas, mecânicas e estéticas. Ignorar essas particularidades é tratar o animal como uma categoria genérica, quando na verdade cada tipo de pelo é um sistema biológico complexo com necessidades únicas. O groomer que investe tempo e recursos para estudar, compreender e aplicar esse conhecimento na prática diária não apenas entrega melhores resultados, mas constrói uma reputação de excelência técnica, capacidade de resolver problemas complexos e compromisso genuíno com o bem-estar animal, atributos que, no mercado competitivo atual, são insubstituíveis.
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